Quem passa os olhos pelo noticiário hoje em dia dificilmente cogita fazer uma viagem ao Irã.  Mas o que pouca gente percebe é que, por trás dos rígidos costumes impostos pela república islâmica, existe um universo fascinante, alheio às desavenças políticas internacionais.

Interessado em conhecer de perto suas paisagens desérticas e cultura milenar, passei 6 anos “cozinhando” a ideia de visitar a antiga Pérsia. Esboçando rotas e me preparando com leituras que variaram de relatos de antigos viajantes a artigos da National Geographic, o projeto se concretizou após um encorajamento final adquirido através do contato com um grupo de iranianos que conheci no orkut.

“Visitar o Irã não é aventura inconsequente ou imprudente. Pode vir tranqüilo, nossa terra é muito diferente da imagem assustadora que a mídia internacional retrata no ocidente” – garantia Shizar, um arquiteto recém formado de Teerã conhecido na comunidade “iranian mountaineers”.

Após seis meses trocando e-mails com amigos virtuais e mais longas conversas travadas com o adido cultural da embaixada iraniana em Brasília, desembarquei em Teerã às 2hs de uma madrugada de outono. Apesar do horário inconveniente, meus amigos de orkut já esperavam no aeroporto e planejavam sozinhos cada dia de minha estadia.

Viagem pelo Irã - Caio Vilela (3) Viagem pelo Irã - Caio Vilela (22) Viagem pelo Irã - Caio Vilela (6)Início da viagem ao Irã – Teerã

Centro do Irã moderno, Teerã é uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes, rodeada pelas montanhas Alborz e seus picos cobertos de neves eternas. O ar poluído, o ruidoso trânsito incentivado pela gasolina barata e a falta de planejamento urbano desagradam à primeira vista, mas seu povo doce e sorridente compensa com uma hospitalidade famosa desde os tempos de Marco Pólo.  

Escondidos entre novos prédios e avenidas em construção por toda parte, o Museu Arqueológico e o vibrante bazar atraem os poucos visitantes estrangeiros que vi circulando pela cidade.

Orgulhosos de seu passado, meus amigos se desdobravam a cada esquina na ânsia de mostrar o que há de melhor em seu país. Na primeira noite, durante o jantar,  a família de Shizar me recebeu como se fosse um parente que há muito tempo não aparecia. Sorridente, o jovem arquiteto batia nas minhas costas com intimidade e perguntava: “honestamente: nós parecemos terroristas?”

Graças a Shizar e sua família, minha primeira impressão deste país complexo e incomum foi ótima, e encorajou seguir viagem rumo ao sul. Viajei até a próxima parada do meu roteiro, Esfahan, em 10 horas a bordo de um confortável vagão de trem noturno pelo preço de apenas 4 dólares.

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Fotos: Caio Vilela
Fotos: Caio Vilela

Viagem pelo Irã - Caio Vilela (8)Seguindo para Esfahan

Esfahan está para o Irã assim como Kyoto está para o Japão. Representante máximo da cultura, tesouro artístico e religioso sem igual, este destino nobre e imperdível  resume o esplendor da arte e da arquitetura islâmica do país.

Entreposto de comércio no meio do deserto, ativo desde a época da Rota da Seda, Esfahan era um centro de zoroastrismo antes da chegada do Islã, fé trazida pelos árabes no século VII. Hoje esta antiga religião que cultua o fogo e deu às outras religiões as primeiras representações do bem e do mal, ainda está viva em alguns templos na região.

Não é à toa que a palavra “paraíso” vem do persa ” pardés”, e significa “jardim dos prazeres do rei”. Esfahan é a prova concreta desta definição, com seus desertos pontuados por oásis repletos de bosques de romãs e jardins de pistache. A delicadeza dos jardins, o colorido dos mercados, a diversidade de paisagens e o sorriso franco de seu povo me faziam querer estender a estadia naquela cidade a cada dia que passava.

No coração de Esfahan, a praça Eman Khomeini mantém sua elegância seiscentista e a vocação para centro de poder, adoração e glória. Seu nome, em homenagem ao aiatolá que comandou a revolução islâmica de 1979, representa apenas mais um dos incontáveis monumentos do Rei que tiveram seus nomes trocados para saudar o grande líder religioso. A sombria entrada da mesquita, sob um portal de 30m de altura ladeado por dois imensos minaretes, confere aos fiéis a certeza de sua insignificância diante de Alá. Nas paredes e no teto, detalhados desenhos confundem-se com obras-primas da caligrafia, num espetáculo de tons azulados e sutil assimetria.

Bazar Central

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Romãs, pistache, açafrão, tapetes, perfumes, cabras e doces típicos mesclam odores em um passeio pelo ambiente empoeirado do bazar central. Sua extensa malha de ruas comerciais cobertas e interligadas sobre o plano urbano milenar da cidade é, na verdade, um labirinto infinito, jamais desvendado por forasteiros em sua essência.

Sem importunar ou abordar inconvenientemente os visitantes, os mercadores entretêm os pedestres exibindo suas variedades e discorrendo sobre a arte de diferenciar os tapetes. As opções de compras não são poucas, mas o embargo econômico sofrido pelo país não me deixava usar cartão de crédito em lugar nenhum, nem mesmo para vôos domésticos.

Mas mesmo sem poder comprar nada, mergulhar nessa exótica atmosfera de sons e cores, repleta de gente recém chegada de todas as partes da Ásia Central, já me saciava por completo. Afegãos, cazaques, turcos, paquistaneses e outros comerciantes circulando pelos corredores revelavam um palco de comércio e um universo à parte, com suas próprias mesquitas, banhos públicos e locais de encontro.

Vida social

Circulando a pé descobri que a vida social entre jovens acontece nas famosas casas de chá, onde o movimento noturno se estende até depois da meia-noite e é marcado pela ausência de bebidas alcoólicas. A agitada vida noturna de Esfahan mantém seu ritmo de segunda a segunda à base de chá, e o movimento começa assim que escurece.

Dentro dos grandes mercados ou à margem do rio Zahedan, as casas de chá, ou tchay khune – em farsi, reúnem gente de classes sociais contrastantes, estudantes e trabalhadores, porém poucos religiosos. Segundo Paivand, outro amigo de orkut, este é o ambiente para se conversar sobre tudo, exceto religião. Negócios, namoros, futebol, internet e poesia parecem ser temas mais freqüentes no papo dos jovens iranianos que vivem na cidade histórica e, atualmente, universitária.

Chá preto e ghaliam, o cachimbo d´água presente em quase todo o Oriente Médio, mantém os jovens envolvidos em conversas sobre poesia, história ou Internet até de madrugada. Os assuntos variam, mas o gosto pela poesia é unânime e cada cidadão tem seu poeta favorito. Um dos mais adorados pela juventude, o poeta moderno Ahmad Shamlou discorre sobre a natureza e a vida urbana, com mensagens filosóficas e ideológicas subentendidas.

Viagem pelo Irã - Caio Vilela (23)Um pouco da cozinha Iraniana

Acompanhado de Paivand, visitei diversos restaurantes em Esfahan e acabei por descobrir uma cozinha oriental com poucos pontos em comum com a culinária árabe. À mesa, apenas garfo e colher. Lentamente ia me adaptando à etiqueta de uma mesa onde, entre outros costumes,   nada pode ser mais bizarro do quecomer arroz com o garfo.

O tempero sumac ( pronuncia-se samoc) , presente em quase todos os tipos de khoresh ( cozidos), representa a cozinha tanto quanto o famoso açafrão iraniano. Durante o Ramadan, o mês sagrado de jejum para todo o mundo islâmico, apenas os restaurantes do bairro Armênio estão abertos, graças ao respeito que os iranianos têm por seus vizinhos, cristãos ortodoxos com comunidades presentes na maioria das cidades importantes do país.

Próxima parada: Shiraz

Após uma viagem de ônibus de 400 km ao sul cheguei à Shiraz, cidade onde os jardins evocam uma imagem de lugar encantado que coloca fim à aridez do deserto.

Divididos em quatro quadrantes, seguindo a tradição, seus jardins parecem ainda ser banhados pelos quatro rios do paraíso: água, vinho, leite e mel. Shiraz recebe um grande volume de turismo doméstico por ser a porta de acesso às milenares ruínas de Persépolis.

PersépolisViagem pelo Irã - Caio Vilela (13)

Raramente visitado por turistas estrangeiros após setembro de 2001, o mais impressionante sítio arqueológico da Pérsia antiga carrega em sua atmosfera o insustentável peso de dois mil e quinhentos anos de história, sensação que se faz evidente até para o mais distraído visitante.

Nas paredes do palácio, figuras em relevo recordam glórias de tempos em que o império persa abrangia da Índia ao Egito; e poderosos líderes babilônios, sírios e etíopes foram recebidos nas dependências dos imponentes palácios de sua capital, antes de sua destruição completa pelo grego Alexandre.

O imperador Dario I, responsável pela obra monumental que demorou 120 anos para se concluída, hoje repousa em uma tumba no alto de um paredão esculpido, junto com seu filho Xerxes. Sob suas ruínas, o silêncio das primeiras horas matinais vem acompanhado de luz suave e temperaturas amenas no deserto.

Ali continua em pé o “Portão de Todas as Nações”, por onde chegavam vassalos de outros reinos, dispostos a pagar seus tributos aos imperadores persas. Hoje suas impressionantes construções esperam pela volta do movimento de turismo internacional que um dia consagrou a importância do local.

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Texto e fotos: Caio Vilela*
  • Caio Vilela, 45 anos, é geógrafo, jornalista, fotógrafo e guia de turismo, nessa ordem. Nascido no bairro de Pinheiros, São Paulo, é guia dos roteiros da Venturas no Nepal e Irã desde 2010 e escreve e fotografa profissionalmente desde 1992. Já esteve em mais de 100 países produzindo reportagens para diversas publicações nacionais e estrangeiras e tem seus trabalhos publicados na Folha de S. Paulo, Playboy, National Geographic Brasil, Trip, Rolling Stone, Superinteressante, Elle, Viagem e Turismo, 4 Rodas, Placar e outros importantes jornais e revistas. 

Também confira o depoimento da Cris Nabeshima sobre suas viagens com a Venturas. Ela esteve no Irã com o Caio Vilela!